A VIGÉSIMA SEXTA SESSÃO OU O ANEL DE FERRO NÃO ESQUECE

   




Onde as lendas surgem do mundo cotidiano e pacato, misturando-se com a realidade, e a aventura espreita em cada canto, formou-se a trupe de aventureiros conhecida como os Unicórnios Saltitantes.


Tudo começara em Limiar e lá estavam eles de volta. Mas eles não eram mais os mesmos. E talvez nem a cidade.


Aprecie este pequeno resumo dos eventos que levaram nossos heróis de volta ao Vale das Nuvens — e os lembraram de que algumas coisas talvez não aceitem tão facilmente permanecer enterradas.



Um mapa de Limiar





SESSÃO VINTE E SEIS: O ANEL DE FERRO NÃO ESQUECE

De Volta a Limiar



Para alguém acostumado aos pequenos povoados do Vale das Nuvens, Limiar parecia enorme. Aproximadamente cinco mil pessoas vivem na capital do baronato, cuja população é formada principalmente por dois grupos humanos: traladaranos nativos e descendentes dos colonos thyatianos, embora comerciantes vindos de Darokin e Ylaruam também fossem relativamente comuns. Além deles, elfos, meio-elfos, pequeninos, gnomos e anões podiam ser encontrados pelas ruas, sobretudo na chamada Cidade Nova, que havia crescido para além das antigas muralhas. Ali, por determinação do velho Barão Sherlane Halaran, os prédios costumavam manter certa distância uns dos outros, uma organização que desaparecia quase completamente quando alguém atravessava para a Ilha Fogor, onde cortiços, becos apertados e iluminação precária formavam um ambiente muito menos convidativo.


A primeira parada dos aventureiros foi a casa de Sir Asdrúbal, primo de Lora e secretário do misterioso "Patrono Recluso", o mago Nethril, que há algum tempo acompanhava as atividades do grupo. Os Unicórnios haviam acumulado uma quantidade considerável de armas, joias e objetos curiosos durante a viagem pelas montanhas e não tinham interesse algum em passar os próximos dias procurando compradores ou discutindo valores com comerciantes. Sir Asdrúbal, embora nem sempre transmitisse a imagem do negociador mais competente de Karameikos, conhecia as pessoas certas e estava disposto a realizar esse trabalho, talvez em troca de uma comissão misteriosa, quem sabe? Dessa forma, boa parte das quinquilharias e tesouros acumulados ficou sob seus cuidados, enquanto os aventureiros finalmente puderam se dedicar aos próprios interesses.


Então o grupo se dispersou por Limiar e, pela primeira vez em muitas semanas, seus membros passaram vários dias sem marchar juntos em direção a alguma ruína amaldiçoada. Darian, incentivado após ver um cartaz de "procura-se", aproveitou a oportunidade para buscar informações sobre Bargle, o antigo braço direito de seu pai e um dos homens que ainda ocupavam posição importante em sua lista particular de inimigos, enquanto Vando o acompanhava pela cidade. Os dois, entretanto, não descobriram nada realmente útil sobre o poderoso mago, embora tenham ouvido diversas histórias sobre um grupo de aventureiros chamado Unicórnios Saltitantes e sobre a destruição que eles supostamente haviam provocado no Vale das Nuvens. Aparentemente, aqueles boatos já haviam se espalhado muito mais do que qualquer um deles imaginava.


Os Unicórnios Retornam a Limiar



A Verdadeira História dos Unicórnios Saltitantes


Uma das razões para isso estava literalmente pregada nas paredes. Limiar era cheia de cartazes anunciando empregos, recompensas, mercadorias, oportunidades para aventureiros e todo tipo de informação útil ou duvidosa, mas um deles chamou imediatamente a atenção do grupo. Na verdade, não se tratava de um único cartaz, pois dezenas de exemplares haviam sido espalhados pelas tavernas, mercados, entradas da cidade e principais vias de circulação. Neles, os Unicórnios Saltitantes apareciam descritos como mercenários e arruaceiros responsáveis por deixar destruição, violência e mortes por onde passavam, tendo o Vale das Nuvens como exemplo mais recente de suas atividades.


Era difícil negar que realmente havia ocorrido uma quantidade considerável de destruição no Vale das Nuvens, porém os aventureiros certamente discordavam de quem deveria receber a responsabilidade por ela. Lora, especialmente incomodada com aquela campanha, decidiu reagir da maneira mais apropriada para uma barda e começou a percorrer a cidade contando o outro lado da história. Enquanto os cartazes transformavam os Unicórnios em responsáveis pelos problemas do Vale, ela falava sobre os camponeses resgatados, a Fonte de Petra, os goblins mutantes, as serpes, o Trio Profano e os horrores que se escondiam nos Poços de Io-Rach. Se alguém pretendia destruir a reputação do grupo espalhando histórias por Limiar, teria ao menos de disputar espaço com alguém que ganhava a vida justamente contando histórias.


Enquanto Lora cuidava da reputação da companhia, Lázaro procurou a Academia de Limiar e pagou pela inscrição que lhe permitiria acessar sua biblioteca, onde pretendia passar boa parte dos dias seguintes estudando. Isolda também se tornou membro da instituição, embora seus interesses fossem ainda mais amplos, pois a área dedicada às artes mágicas mantinha relações com a Guilda das Estrelas Cintilantes, e seus integrantes podiam adquirir componentes e objetos especiais na Casa de Encargos Arcanos. Além disso, certas magias consideradas utilitárias podiam ser utilizadas legalmente dentro da cidade por membros reconhecidos da Guilda, uma autorização que certamente seria útil para alguém que parecia incapaz de passar muitos dias sem recorrer a algum tipo de feitiço.


Lora busca melhorar a reputação do grupo



A Casa de Encargos Arcanos


A Casa de Encargos Arcanos não tinha exatamente a aparência de um lugar destinado a impressionar clientes. O prédio era construído em pedra escura, possuía pequenas janelas e apresentava antigas runas de proteção já desgastadas pelo tempo, enquanto na porta havia apenas um símbolo discreto representando uma chave cruzando um olho estilizado. Por dentro, o estabelecimento era igualmente reservado: um pequeno salão continha prateleiras fechadas, um balcão reforçado e duas portas magicamente trancadas que deixavam bastante claro que nem tudo estava disponível para qualquer visitante.


Quem administrava o lugar era Maelis Dhorann, uma conjuradora ligada à Guilda das Estrelas Cintilantes que recebeu Isolda com a segurança tranquila de alguém acostumada a negociar objetos raros. O mago logo perguntou se sua recente filiação lhe concederia algum desconto, apenas para descobrir que a principal vantagem era outra: pertencer à Guilda lhe permitia ter acesso àquelas mercadorias. Os preços continuavam exatamente onde estavam. Mesmo assim, havia muito para ver. Maelis começou a apresentar tintas especiais usadas na escrita de grimórios, gemas, materiais alquímicos, componentes mágicos, pergaminhos e diferentes poções, algumas bastante úteis e outras com propriedades tão específicas que talvez fosse melhor descobrir seus efeitos em condições cuidadosamente controladas.


Isolda não pareceu intimidado. Ao contrário, passou a comprar. Pergaminhos, componentes e poções começaram a desaparecer dentro de sua bolsa cabe-tudo, juntando-se à quantidade cada vez maior de objetos que o mago carregava de um lado para outro. Já que nenhum dos companheiros de aventuras parecia se importar com aquele tanto de moedas que estavam em sua bolsa, e ele tinha ouro demais até mesmo para gastar tudo com doces, sua estranha obsessão, era melhor gastar ali, com poções. Nos dias seguintes, boa parte de seu tempo foi dividida entre novas visitas à loja, estudos na Academia e o trabalho paciente de copiar magias para seu grimório. Depois de tantas semanas nas montanhas, a possibilidade de permanecer sentado diante de livros e fórmulas provavelmente parecia quase uma forma de férias, embora em algum momento Isolda tenha percebido que ao menos um dos objetos adquiridos parecia carregar uma aura estranhamente familiar, lembrando de maneira incômoda algumas das coisas que havia encontrado no Vale das Nuvens. A principal suspeita recaía sobre uma vassoura voadora que adquirira recentemente, o que, naturalmente, não foi motivo suficiente para que deixasse de utilizá-la.


Isolda visita a Casa de Encargos Arcanos



Investigar Pessoas É Mais Caro do que Caçar Monstros


Thalion, por sua vez, havia decidido descobrir quem estava por trás dos cartazes e logo percebeu que suas habilidades haviam sido desenvolvidas para um tipo muito diferente de investigação. Na floresta, rastros eram relativamente honestos: pegadas indicavam passagem, galhos quebrados revelavam direção e marcas no solo ajudavam a reconstruir movimentos. Numa cidade, contudo, quase toda pista parecia vir acompanhada da necessidade de comprar uma bebida, pagar uma informação ou colocar algumas moedas na mão de alguém disposto a falar, e isso se tornou um problema considerável para um elfo que não possuía uma fortuna pessoal e insistia em se enxergar como alguém apenas temporariamente associado aos Unicórnios.


Quando seus recursos começaram a desaparecer, Thalion enviou outra mensagem para sua comandante pedindo fundos para continuar a investigação. A resposta levou alguns dias para chegar, enquanto o dinheiro demorou ainda mais e veio acompanhado da informação de que seria enviado por navio. Assim, somente depois de quase uma semana, quando suas moedas já estavam perigosamente próximas do fim, o arqueiro recebeu uma bolsa contendo 288 peças de ouro, reais karameikanos, e pôde retomar o trabalho. Durante a segunda semana, depois de gastar mais dinheiro seguindo pistas pouco úteis, percebeu finalmente algo bastante simples: Limiar tinha apenas cerca de cinco mil habitantes e dificilmente existiriam dezenas de profissionais capazes de produzir uma centena de cartazes em pouco tempo.


Essa constatação o levou até Petru Valescu, gravador e pintor de letreiros, que reconheceu imediatamente o material apresentado pelo elfo. Petru, entretanto, explicou que não tinha o costume de revelar a identidade de seus clientes, pois a discrição fazia parte de seu trabalho. Thalion respondeu da maneira que aprendera ser mais eficiente naquele tipo de investigação e colocou dinheiro sobre a mesa. Depois de alguma negociação, o gravador explicou que uma mulher de cabelos negros, olhos verdes e envolta por uma capa havia encomendado aproximadamente uma centena daqueles cartazes, pagando inclusive acima do preço comum para que fossem espalhados pelos principais mercados, tavernas e entradas da cidade.


Petru alegava não saber o nome da mulher, mas sabia que ela estava ligada a um grupo que boa parte dos habitantes de Limiar preferia não mencionar. Outras moedas mudaram de mãos e, desta vez falando mais baixo, o gravador revelou o nome: Anel de Ferro. Antes que Thalion partisse, ainda sugeriu que talvez valesse a pena investigar as proximidades do Ogro Trapaceiro, uma taverna conhecida pelo alto movimento de pessoas, nem todas recomendáveis, e onde membros da organização foram vistos nas últimas semanas.


Agora o arqueiro possuía uma pista concreta e, pela primeira vez durante aquela investigação, concluiu que talvez fosse prudente não continuar sozinho.


Thalion conversa com Petru



Uma Reunião Muito Discreta


Thalion procurou Isolda e pediu que reunisse os Unicórnios, explicando que precisava conversar com todos em algum lugar reservado. A insistência do elfo em falar dos aventureiros como se ele próprio não estivesse entre eles já começava a se tornar curiosa, pois naquele momento Thalion aparecia em cartazes junto ao restante do grupo, enfrentava seus inimigos, dividia seus perigos e provavelmente seria atacado pelas mesmas pessoas. Ainda assim, em sua própria cabeça, parecia considerar-se apenas um agente temporariamente associado à companhia.


O grupo reuniu-se em um cômodo alugado na Pousada Dragão Dourado, uma das melhores hospedarias de Limiar, onde o movimento constante de viajantes e músicos oferecia bastante ruído de fundo. Isolda, porém, preferiu não depender apenas disso e utilizou magia para impedir que os sons da conversa deixassem o quarto. Uma preocupação admirável com a discrição, sobretudo considerando que pouco antes o próprio mago havia chegado ao estabelecimento montado numa vassoura voadora de maneira suficientemente chamativa para atrair alguns olhares.


Thalion então mostrou o cartaz e relatou tudo o que descobrira: a mulher de cabelos negros e olhos verdes, sua ligação com o Anel de Ferro e a recomendação de procurar informações nos arredores do Ogro Trapaceiro. Isolda conhecia bem o nome do estabelecimento, pois ele estava associado aos primeiros acontecimentos que haviam levado os aventureiros ao Vale das Nuvens e, posteriormente, à descoberta de uma operação do próprio Anel de Ferro em Efúgio. Darian também tinha motivos pessoais para se interessar pelo assunto, já que aquela organização estivera ligada ao antigo domínio de seu pai e a acontecimentos que haviam destruído sua família. Vando não demonstrou qualquer objeção e, depois de alguma discussão, todos concordaram que valia a pena investigar.


Thalion ainda fez questão de lembrar que o Anel de Ferro não era formado por simples ladrões de estrada. Se a organização estava espalhando cartazes contra os Unicórnios, provavelmente já sabia que eles haviam retornado à cidade e talvez fosse prudente estabelecer guardas durante a noite, evitar andar sozinho e tomar outras precauções. O grupo ouviu atentamente esse conselho e, pouco depois, decidiu caminhar diretamente para uma das regiões onde membros do Anel eram vistos.


Fazendo planos



Um Grito na Rua


Os aventureiros tomaram alguns cuidados antes de partir, pois andar pelas áreas mais movimentadas de Limiar carregando ostensivamente todo o arsenal poderia atrair atenção indesejada da guarda. Quando se aproximaram do Ogro Trapaceiro, entretanto, já estavam preparados e Thalion ainda utilizava magia para dificultar que fossem percebidos enquanto avançavam pelas sombras.


Eles nem chegaram a entrar na taverna.


Um grito feminino cortou a rua e uma mulher surgiu cambaleando em direção ao estabelecimento, ferida, desorientada e aparentemente atingida na cabeça. Como os aventureiros estavam escondidos, ela quase passou por eles sem perceber sua presença, até que Isolda se revelou e perguntou se alguém a perseguia. A resposta veio entre respirações desesperadas: alguns homens haviam capturado seu marido, e ela sabia quem eram.


O Anel de Ferro.


A mulher se chamava Seledina, enquanto seu marido era Juster Dainworth. Ela apontou para um beco que passava pelos fundos do Ogro Trapaceiro e explicou que os sequestradores haviam seguido naquela direção. Thalion sugeriu que procurasse a guarda, mas Seledina descartou a possibilidade imediatamente, afirmando que os próprios guardas tinham medo da organização. Aquilo dizia bastante sobre o alcance do Anel em Limiar.


Isolda prometeu que tentariam recuperar Juster e recomendou que ela procurasse abrigo dentro da taverna. Thalion ainda colocou cinco peças de ouro em sua mão para que pudesse pagar um quarto e esperar em segurança, antes de seguir com os demais para o beco indicado. Se os sequestradores ainda estivessem por perto, talvez aquela fosse a única oportunidade de alcançá-los antes que Juster desaparecesse nos esconderijos subterrâneos da organização.


Encontrando Seledina



Debaixo da Botica


O beco terminava entre muros altos e construções apertadas. Do lado estava o Ogro Trapaceiro. Na rua de trás havia uma botica, uma fundição de estanho, uma loja de velas e outros pequenos estabelecimentos que ocupavam o quarteirão. Isolda enviou Blóvis para observar os telhados e os fundos dos edifícios, enquanto Thalion procurava rastros e sinais recentes de passagem. No fundo do corredor estreito, uma escadaria descia até duas portas, e tudo indicava que pessoas haviam passado por ali recentemente.


As portas estavam trancadas, o que apenas atrasou o grupo durante alguns instantes. Depois de algumas tentativas, Darian conseguiu abrir caminho e revelou um porão mergulhado em quase completa escuridão. A pouca luz que entrava pela porta mal alcançava alguns metros e, para quase todos os aventureiros, qualquer coisa além daquele pequeno círculo permanecia invisível. Thalion, graças à visão élfica, tinha uma percepção muito melhor do ambiente e logo compreendeu que alguém os aguardava lá dentro.


Ainda houve uma tentativa de resolver a situação sem derramamento de sangue. Thalion ordenou que os ocupantes largassem as armas e se rendessem, enquanto Isolda anunciou que estavam ali para libertar Juster e quaisquer outros prisioneiros mantidos pela organização. A resposta, porém, deixou bastante claro que o Anel de Ferro não tinha intenção de cooperar.


Darian foi o primeiro a avançar.


No beco escuro explode a violência



O Porão do Anel de Ferro


O primeiro inimigo visível era Ruffos, um orc protegido por sua meia-armadura e carregando um enorme malho. Darian atravessou a entrada antes que ele pudesse organizar uma defesa e desferiu seus primeiros ataques, transformando imediatamente aquele trecho estreito do porão numa confusão de aço, madeira e golpes violentos. Thalion permaneceu alguns passos atrás e começou a disparar contra Ruffos, ainda oferecendo ao orc oportunidades periódicas de reconsiderar a carreira escolhida.


Ruffos não demonstrou interesse em qualquer negociação e respondeu atacando Darian com o malho, acertando-o mais de uma vez enquanto declarava que o Anel de Ferro jamais se rendia. A resistência foi vigorosa, porém insuficiente. Pressionado pelo guerreiro e pelos disparos que vinham de trás, Ruffos acabou tombando, mas sua morte apenas revelou que o porão estava muito mais ocupado do que parecia inicialmente.


A escuridão favorecia os defensores. Darian, Vando e Isolda quase nada conseguiam enxergar além do trecho iluminado pela entrada, enquanto diferentes inimigos utilizavam caixas, paredes e um mezanino de madeira como cobertura. Foi exatamente por conseguir enxergar melhor naquele ambiente que Thalion percebeu Venceslau Silencill, um homem escondido na parte superior do porão com uma besta leve preparada. Venceslau esperou que Darian ficasse exposto, saiu da escuridão e se inclinou para disparar.


Thalion já estava esperando por algo assim.


No instante em que o atirador deixou sua cobertura, o elfo reagiu e lançou uma flecha antes que o disparo inimigo pudesse alcançar seu alvo. O projétil atingiu Venceslau em cheio e o homem despencou do mezanino, morto antes mesmo de conseguir transformar sua posição vantajosa em alguma coisa realmente útil. A cena lembrava menos um combate medieval do que um duelo de pistoleiros, embora um dos envolvidos utilizasse uma besta e o outro um arco encantado.


Jade avançou pelo porão ao lado de seu mestre, mas novos inimigos começaram a aparecer e o confronto rapidamente deixou de ser uma simples luta contra alguns capangas.


Combate no porão



Fogo no Escuro


Uma mulher ágil surgiu da escuridão e abriu fogo contra Darian. Era Brenna Vladova, uma pistoleira que se aproveitava da pouca iluminação para atacar e recuar antes que os aventureiros pudessem responder adequadamente. Em seguida apareceu também Dragomir, um sacerdote sombrio ligado à célula, mas a maior ameaça se revelou quando Falano Novakov entrou no combate.


O mago do Anel de Ferro observou rapidamente a situação e percebeu aquilo que qualquer conjurador experiente perceberia: os Unicórnios estavam agrupados em torno de uma entrada relativamente estreita. Pouco depois, uma Bola de Fogo explodiu no porão, preenchendo o ambiente com chamas, fumaça e madeira estalando. Thalion perdeu a concentração sobre a magia que ajudava a ocultar o grupo, enquanto Vando conseguiu manter a sua, e Darian suportou parte do impacto graças às próprias resistências.


Isolda compreendeu imediatamente qual era o adversário mais perigoso. Havia outro mago no porão e, pior ainda, um mago capaz de utilizar exatamente o tipo de magia que costumava decidir combates rapidamente. O confronto se espalhou pelo ambiente enquanto Darian avançava, Vando procurava linhas de tiro, Brenna continuava disparando das sombras e Falano tentava manter distância suficiente para conjurar.


Foi durante essa movimentação que Thalion encontrou a pessoa que procurava havia quase duas semanas.


Você pode não saber a pergunta certa, mas a resposta é sempre Bola de Fogo!



Então Pode Me Incluir na Lista


A mulher tinha cabelos negros e olhos verdes, exatamente como Petru havia descrito, e para alguns dos Unicórnios seu rosto era ainda mais familiar. Liora Belmon havia comandado a célula do Anel de Ferro que operava no Vale das Nuvens e estivera diretamente envolvida na captura dos aventureiros em Efúgio, quando Isolda acabara sozinho, acorrentado numa sala úmida.


Thalion reconheceu a descrição antes mesmo de conhecer toda aquela história.


— Então é você que espalha aqueles cartazes mentirosos.


Liora nem sequer tentou negar.


— Isso é entre mim e os Unicórnios.


O elfo preparou o arco.


— Então pode me incluir na lista de inimigos.


A flecha a atingiu logo depois, tornando cada vez mais difícil sustentar a ideia de que Thalion era apenas um observador temporariamente associado ao grupo.


Isolda também reconheceu Liora e, durante o restante do confronto, os dois passaram a trocar provocações entre golpes e magias. O mago fazia questão de tratar sua antiga carcereira com um desprezo que parecia incomodar a mulher ainda mais do que os ataques. Em determinado momento, Isolda encontrou uma posição de onde podia atingir boa parte dos inimigos e lançou sua própria Bola de Fogo no interior do porão, utilizando as informações recebidas através de Blóvis para escolher um ponto que evitasse Jade. A explosão acertou vários membros do Anel e derrubou um deles, além de incendiar parte da madeira espalhada pelo lugar, criando finalmente iluminação suficiente para que os outros aventureiros enxergassem melhor.


Liora, entretanto, moveu-se no último instante e escapou praticamente ilesa.


— Vai ter que fazer melhor que isso, Isolda.


O mago não demonstrou qualquer interesse em transformar o combate numa competição pessoal, mas o incêndio que se espalhava pelo porão ao menos havia resolvido um dos problemas do grupo: finalmente havia luz.


O problema seguinte era que Falano continuava vivo.


Bate papo com Liora



A Segunda Bola de Fogo


Vando começou a avançar com mais segurança depois que as chamas iluminaram o porão e passou a lançar seus disparos contra os integrantes do Anel, enquanto Darian procurava pressionar os inimigos que permaneciam em combate. Falano, por outro lado, demonstrou que ainda possuía recursos consideráveis. Quando Isolda tentou conjurar outra magia, o adversário respondeu com uma Contramágica e anulou o feitiço antes que ele se completasse.


Em seguida, Falano reposicionou-se e voltou a fazer aquilo que já havia funcionado antes.


Outra Bola de Fogo explodiu entre os Unicórnios.


Desta vez, o impacto foi ainda pior. Blóvis desapareceu imediatamente nas chamas e Thalion, que já havia sofrido uma sequência de ataques durante o confronto, caiu inconsciente. Vando imediatamente começou a calcular como poderia chegar ao companheiro e ajudá-lo, enquanto Darian avançava em direção ao mago inimigo para impedir que ele continuasse conjurando livremente.


Contudo, antes que qualquer um precisasse alcançar Thalion, o próprio elfo decidiu voltar à luta. Em meio aos delírios, tentando permanecer vivo, conseguiu um sopro de vida excepcional e abriu os olhos pouco depois de cair. Ainda bastante ferido, tomou uma de suas poções de cura mais poderosas, recuperou parte das forças e, em vez de procurar abrigo, voltou a empunhar o arco.


A batalha ainda estava longe de terminar.


Melhor que uma Bola de Fogo, apenas duas Bolas de Fogo!



Não Mexa com a Cobra


Jade continuava deslizando pelo porão e atacando os inimigos que ameaçavam seu mestre. Em determinado momento, a serpente conseguiu ferir Liora, que já havia recebido diversos ataques desde o início do combate. Irritada, a mulher voltou-se para a criatura e preparou-se para eliminá-la.


Thalion percebeu.


Era a segunda vez em pouco tempo que alguém tentava matar sua serpente.


Antes que Liora completasse o ataque, o arqueiro reagiu e lançou mais uma de suas flechas incendiárias. O projétil atingiu a antiga líder da célula e a derrubou antes que pudesse alcançar Jade, encerrando definitivamente a vingança que ela parecia ter planejado desde os acontecimentos no Vale das Nuvens.


Restavam poucos inimigos.


Isolda voltou sua atenção para Falano e tentou atingi-lo com outra magia, mas a Contramágica do adversário novamente interrompeu a conjuração. Vando, entretanto, não precisava superar defesas arcanas para resolver aquele problema. Antes de atacar, utilizou sua própria magia para devolver parte das forças a Thalion e então encontrou uma linha de tiro para o mago.


O disparo foi excepcional.


A flecha atingiu Falano com força suficiente para derrubá-lo, encerrando o duelo entre os dois conjuradores de uma maneira muito menos sofisticada do que provavelmente qualquer um deles gostaria. Depois disso, somente Brenna continuava em condições de lutar.


Ela olhou ao redor.


Ruffos havia caído. Venceslau estava morto. Liora também. Falano acabara de tombar. Os demais integrantes da célula não ofereciam mais resistência e, embora feridos e queimados, os Unicórnios continuavam de pé.


Vando apontou o arco para ela e ofereceu uma última oportunidade de rendição.


Desta vez, alguém aceitou.


Brenna guardou a pistola e levantou as mãos.


Depois de quase todo o combate insistindo para que os inimigos largassem suas armas, Thalion finalmente conseguiu aquilo que queria.


Não mexam com a cobra de Thalion!



Juster Ainda Estava Lá Embaixo


Brenna foi desarmada, revistada e amarrada enquanto os aventureiros tentavam descobrir o paradeiro de Juster. Darian demonstrou interesse especial pela pistola da criminosa, inclusive considerando aprender a utilizar uma arma daquele tipo mais tarde, mas Thalion e Isolda estavam preocupados com a vítima do sequestro.


Segundo Brenna, que respondia apenas ao que perguntavam, Juster já havia sido levado para os túneis e a entrada ficava escondida sob uma grande caixa dentro do próprio porão. As galerias subterrâneas conduziam a um quartel-general do Anel de Ferro localizado sob Limiar e, embora apenas dois homens tivessem acompanhado o prisioneiro, ela não sabia quantos membros da organização poderiam estar nos corredores ou na base. Havia também uma saída do complexo através de um galpão abandonado em outra parte da cidade.


A informação gerou uma discussão imediata. Darian estava bastante ferido, Thalion ainda se recuperava de ter quase morrido e Isolda já havia utilizado parte considerável de sua magia. Um descanso seria extremamente útil, porém cada minuto perdido dava aos sequestradores tempo para conduzir Juster mais profundamente para dentro do complexo. Thalion acreditava que aquela talvez fosse a melhor oportunidade de alcançar apenas os dois homens responsáveis pelo transporte antes que eles chegassem ao restante da organização, enquanto Isolda concordava que deveriam continuar o mais rápido possível.


Vando utilizou parte de seus limitados recursos curativos para recuperar os companheiros, e o grupo decidiu avançar. Brenna foi deixada amarrada num local onde poderia ser encontrada caso os aventureiros não retornassem e, depois disso, Thalion começou a remover a grande caixa que escondia a passagem subterrânea.


Foi então que Isolda se lembrou de uma pergunta importante.


Talvez devessem ter perguntado a ela se havia alguma armadilha.


Interrogando Brenna



Pressa


A resposta veio do teto.


Quando Thalion empurrou a caixa, um mecanismo oculto foi acionado e várias pedras despencaram sobre ele, causando novos ferimentos apenas alguns minutos depois de Vando ter gasto magia para curá-lo. Houve um breve momento em que todos pareceram compreender que investigar armadilhas antes de mover o objeto que as acionava talvez fosse uma boa prática para aventuras futuras.


Não havia, contudo, muito tempo para discutir o assunto.


Sob a caixa estava o verdadeiro alçapão. Desta vez, depois de examinar a abertura, Thalion concluiu que ela não possuía outra armadilha e revelou uma pequena escada que desaparecia na escuridão abaixo da cidade. Os Unicórnios começaram então a descer, deixando para trás o porão incendiado e os restos da célula do Anel de Ferro.


Acima deles continuavam as tavernas, mercados, casas e ruas de Limiar. Abaixo, havia apenas corredores estreitos, pedra e túneis construídos por pessoas que claramente não tinham qualquer interesse em serem encontradas.


Era... CILADA!



Sob Limiar


Thalion tomou a dianteira, enquanto Isolda utilizava sua nova vassoura para acompanhá-lo e os demais seguiam logo atrás. Juster havia sido levado havia relativamente pouco tempo e, se Brenna estivesse dizendo a verdade, talvez ainda fosse possível alcançar os dois homens responsáveis pelo sequestro antes que chegassem ao quartel-general.


Os túneis, entretanto, eram estreitos e desconhecidos. A luz mal alcançava as curvas seguintes, e o silêncio tornava difícil saber se alguém os observava. Mesmo assim, os aventureiros continuaram avançando até chegar a uma encruzilhada subterrânea.


Ali, finalmente encontraram movimento. Duas grandes silhuetas ocupavam o caminho. Eram ogros. Dois deles. Grandes, armados e aparentemente pouco interessados em explicar qualquer coisa.


Os Unicórnios pararam por um instante, ainda feridos do combate anterior, enquanto as criaturas observavam os recém-chegados. Um dos ogros pareceu avaliar o grupo e então resumiu suas intenções com a objetividade característica de sua espécie:


— Elfo ter gosto de frango.


Isolda ergueu sua varinha, Thalion preparou o arco, Darian apertou o cabo da arma e Vando procurou espaço para disparar.


Em algum ponto daqueles túneis, Juster Dainworth ainda precisava ser resgatado e, depois de quase duas semanas procurando respostas pelas ruas de Limiar, os Unicórnios finalmente haviam encontrado a entrada para aquilo que pareciam procurar desde que chegaram à cidade.


O Vale das Nuvens havia ficado para trás.


O Anel de Ferro, contudo, estava apenas começando.


Uma encruzilhada de dois ogros.



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