
Onde as lendas surgem do mundo cotidiano e pacato, misturando-se com a realidade, e a aventura espreita em cada canto, formou-se a trupe de aventureiros conhecida como os Unicórnios Saltitantes. Após atravessarem o véu de Faéria, devolverem a pureza à Fonte de Petra e enfrentarem os horrores que corrompiam o Vale das Nuvens, os aventureiros finalmente haviam derrotado o Trio Profano. A vitória, entretanto, cobrara um preço terrível. Worg, Ketil e Darian haviam perecido nas antigas minas anãs, juntando-se aos muitos goblins e camponeses sacrificados pelos planos de Ur-Jasz, Kezzerug e Gog’drozaun. Ainda assim, o trabalho não estava terminado. Nos corredores mais profundos permanecia uma criatura conhecida pelos goblins desertores apenas como o Observador. Além disso, alguns dos camponeses sequestrados ainda podiam estar vivos. Era necessário descer uma última vez.
Aprecie este pequeno resumo dos eventos que encerram as investigações nas montanhas do norte do Vale.
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| O Vale das Nuvens |
SESSÃO VINTE QUATRO: UMA ÚLTIMA ABERRAÇÃO
O descanso fora suficiente para fechar algumas feridas, mas não para apagar o efeito da corrupção que permeava aquela região das minas. Isolda e Lora continuavam profundamente debilitadas pela influência do Reino Distante e não estavam em condições de acompanhar os demais. Permaneceriam na retaguarda, guardando a entrada e os pertences do grupo enquanto os outros desciam. Antes de voltarem as Minas, Lázaro reuniu os companheiros em uma oração. Suas palavras fortaleceram não apenas Shadowmoon, Thalion e Vando, mas também Jade, a serpente que agora acompanhava o arqueiro elfo. Até mesmo uma cobra podia encontrar inspiração nas palavras de um sacerdote verdadeiramente dedicado. O clérigo também se aproximou de Shadowmoon e lhe entregou um anel.
— Sangue do meu sangue. Carne da minha carne — declarou Lázaro. — Que Ixion não separe o que estamos unindo, irmão!
A cerimônia improvisada estabeleceu um elo mágico entre os dois. Shadowmoon seria protegido contra os ataques inimigos, mas parte de cada ferimento sofrido pelo espadachim também seria sentida por Lázaro. Parecia quase um casamento. Um casamento no qual ambos provavelmente seriam golpeados por aberrações, cobertos de gosma e arremessados em poças de ácido, mas ainda assim um casamento. Há quem diga que os melhores casamentos são feitos disso.
Preparados da melhor forma possível, os quatro aventureiros avançaram furtivamente pelas galerias. Shadowmoon seguia à frente, com Lázaro logo atrás. Thalion vinha depois, acompanhado por Jade, enquanto Vando protegia a retaguarda com o arco preparado. Aquela parte das minas já era conhecida, mas continuava longe de ser segura. O caminho atravessava a área do antigo elevador que ligava as galerias ao templo profanado. Pontes de madeira cruzavam fendas profundas, e o leito seco de um rio subterrâneo se abria dezenas de metros abaixo. Em outros pontos, poças de um líquido brilhante e corrosivo denunciavam os resíduos das experiências realizadas pelo Trio Profano. Os prisioneiros estavam em algum lugar adiante. Assim como o Observador. Ou era o que o grupo acreditava...
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| Lázaro entre o foco de sua magia de proteção: um anel encantado pelo poder de Ixion |
Olhos na Escuridão
Enquanto passavam pela área do elevador, os aventureiros que ainda não podiam enxergar seus inimigos sentiram que alguma coisa se movia na escuridão. Shadowmoon avançou cautelosamente. Lázaro o acompanhou, enquanto Thalion buscava uma posição de onde pudesse disparar. Jade e Vando, na retaguarda, ainda atravessavam a galeria anterior quando uma criatura se ergueu diante do grupo. Ela parecia uma estátua gigantesca, embora sua forma oscilasse continuamente. Em um momento, seu corpo parecia feito de pedra negra. No seguinte, transformava-se em uma massa de água escura e fétida, sem que fosse possível determinar onde terminava o líquido e começava o sólido.
Era um golem aquático de Shaboath.
Perto dele flutuava uma criatura menor, esférica e coberta por olhos e pequenos tentáculos. Não era exatamente um observador verdadeiro, embora certamente compartilhasse muitas de suas características mais desagradáveis. Talvez um observadoroide ou um pseudobservador, caso os estudiosos de Mystara estejam dispostos a aceitar o neologismo. Seu nome era Gazriktac. O golem foi o primeiro a agir. Com um movimento de seus membros aquáticos, fez surgir uma muralha de gelo negro na passagem que levava à área do elevador. A barreira cortou o caminho separando Jade e Vando dos demais, mergulhando o guardião das matas e a serpente mágica em completa escuridão, o que impediu que eles se reunissem imediatamente ao grupo.
Thalion, que estava próximo do ponto onde a muralha surgiu, foi atingido pelo frio sobrenatural. Ainda assim, não havia tempo para avaliar os ferimentos. Mais à frente, Shadowmoon avançou contra os monstros. Sua presença obrigou Gazriktac a recuar, e o Observador pressentia que Vando tentava contornar a barreira. Sozinho na escuridão, o arqueiro acendeu uma tocha e correu por uma passagem lateral. Ao chegar às pontes, lançou o objeto sobre as tábuas para iluminar o caminho — percebendo, talvez um pouco tarde demais, que colocar fogo sobre uma ponte de madeira poderia gerar outro tipo de problema. Foi quando Gazriktac girou no ar e apontou um dos olhos contra ele. Uma força invisível atingiu Vando, arremessando-o contra as pedras e para fora da passagem. O arqueiro caiu dentro de uma das poças de ácido cerca de 6 ou 7 metros abaixo das pontes, sofrendo tanto com o impacto quanto com o líquido corrosivo que imediatamente começou a queimar sua pele. Mas aquele foi apenas o primeiro raio.
O olho central de Gazriktac voltou-se para Thalion e Lázaro. A mente de Thalion foi tomada por uma força esmagadora, deixando-o atordoado e incapaz de agir. Outro olhar paralisou Shadowmoon. Um terceiro raio atingiu Lázaro com uma explosão de fogo. Em poucos instantes, Vando estava dentro do ácido, Thalion estava atordoado, Shadowmoon estava paralisado e Lázaro acabara de ser queimado. O confronto começara de maneira quase perfeita. Para as aberrações do Reino Distante.
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| Unicórnios em linha explorando as cavernas |
Restava a Lázaro impedir que o combate terminasse antes de realmente começar. Invocando o poder de Ixion, o sacerdote dissipou o efeito que mantinha Thalion incapacitado. Em seguida, correu até Shadowmoon e despejou um elixir em sua garganta, libertando o espadachim da paralisia. Thalion recuperou os sentidos e tentou atingir Gazriktac, mas seu primeiro disparo se perdeu em meio ao caos. Antes que pudesse tentar novamente, o golem de Shaboath avançou. Seu corpo se desfez em uma onda de água escura e salobra. O líquido atingiu Lázaro e Shadowmoon. O frio feriu os dois, mas o verdadeiro perigo surgiu quando a água não escorreu de seus corpos. Em vez disso, tornou-se uma gosma espessa e pegajosa, prendendo seus braços, imobilizando suas pernas e cobrindo seus rostos. Shadowmoon não conseguia respirar.
Lázaro também não conseguiria, caso ainda precisasse respirar como uma pessoa normal, mas ele era um renascido: comer, beber ou respirar já não eram mais uma preocupação para o sacerdote. O espadachim tentou romper a prisão, mas a substância era resistente demais. Preso ao lado dele, Lázaro continuava recebendo parte de seus ferimentos por meio do elo estabelecido antes da descida. Enquanto isso, Vando se levantou dentro da poça corrosiva e começou a escalar para fora. Mesmo queimado pelo ácido, marcou Gazriktac como sua presa e disparou contra o monstro. A flecha atingiu o corpo flutuante, mas o ataque provocou uma resposta imediata: um dos olhos da aberração voltou-se contra o arqueiro disparando um ataque. Vando resistiu ao novo raio e preparou um segundo ataque com seu arco. Gazriktac, porém, parecia ter desenvolvido uma preferência especial pelo guardião das matas. Depois de lançar novos raios contra os demais — um dos quais interferiu temporariamente na varinha de detectar magia de Thalion —, o monstro voltou a empregar sua força telecinética. Vando foi arrancado do caminho e lançado novamente para dentro da mesma poça de ácido da qual acabara de escapar. Uma coisa era certa: Gazriktac tinha uma estratégia.
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| Gazriktac empurra Vando da ponte |
Lázaro finalmente conseguiu romper a gosma que o aprisionava. O golem avançou para golpeá-lo, mas Thalion estava preparado. Antes que a criatura completasse o ataque, o arqueiro disparou uma flecha incendiária. O projétil atingiu a massa aquática e a reação foi imediata. Mesmo a pequena quantidade de fogo fez o corpo da criatura se contorcer. A substância que ainda prendia Shadowmoon perdeu sua consistência e escorreu como uma cachoeira, libertando o espadachim. Thalion compreendeu o que acontecera.
— Ataquem com fogo!
Ele preparou uma de suas munições elementais e disparou outra vez. A flecha incendiária atravessou a água escura, espalhando chamas pelo corpo do golem. Sua forma se retorceu violentamente, incapaz de manter a mesma coesão diante do calor. O fogo era sua fraqueza. O golem tentou esmagar Shadowmoon com seus membros, mas o espadachim resistiu aos ataques. Em seguida, revidou com suas lâminas. Os golpes físicos atingiram a criatura, embora sua forma de água e pedra absorvesse grande parte da força. Thalion continuava sendo castigado por ataques psíquicos sempre que ameaçava os inimigos, mas seus disparos haviam alterado o rumo da batalha. Do outro lado, Vando mais uma vez se ergueu da poça de ácido.
Gazriktac havia escolhido o arqueiro humano como seu alvo preferido durante quase todo o confronto. Vando decidiu retribuir a atenção. Duas flechas cruzaram a caverna. A primeira atravessou o corpo da criatura. A segunda encontrou um ponto ainda mais vulnerável entre seus olhos. Gazriktac tombou no ar e caiu das alturas. O Observador estava morto. Restava o golem.
Jade finalmente completou o longo caminho ao redor das passagens e atacou a criatura. Suas presas conseguiram atingir a massa aquática, embora o veneno da serpente não produzisse qualquer efeito. Lázaro, bastante ferido após compartilhar os danos sofridos por Shadowmoon, invocou seu poder divino. A luz de Ixion percorreu a caverna, restaurando parte das forças do sacerdote e de Thalion. O arqueiro elfo preparou outra flecha elemental. O disparo incendiário atingiu o golem com força devastadora. Chamas atravessaram sua forma aquática, evaporando parte da matéria escura e deixando a criatura à beira da destruição. Foi então que todos ouviram uma voz dentro de suas próprias mentes:
— Mesmo que vocês me vençam, este é apenas o primeiro combate entre nós.
O corpo do golem explodiu novamente em uma onda de água negra. Dessa vez, porém, os aventureiros estavam preparados. Todos resistiram ao impacto e evitaram ser novamente aprisionados pela substância pegajosa. Shadowmoon avançou e golpeou a criatura, enquanto Thalion suportava mais uma agressão psíquica. Vando transferiu a marca de caçador para o último inimigo. O arqueiro disparou. A flecha atravessou o que restava da forma aquática. Por um instante, a criatura oscilou entre pedra, água e alguma substância que não pertencia completamente a nenhum dos dois estados. Então, sua estrutura desmoronou.
Thalion encontrara sua fraqueza e a reduzira a poucos vestígios com suas flechas incendiárias. Vando, que já havia abatido Gazriktac, realizou também o disparo que encerrou a existência do golem de Shaboath. Ao menos daquela manifestação.
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| Thalion usa fogo contra o golem de Shaboath |
O Laboratório do Observador
Com o combate encerrado, Thalion recolheu uma pequena amostra da água escura deixada pela criatura. Talvez pudesse estudá-la mais tarde. Talvez guardá-la fosse uma ideia terrível. As duas possibilidades não eram necessariamente excludentes. Os aventureiros seguiram até as celas e encontraram dois homens ainda vivos. Mauro e Roger estavam extremamente debilitados, cada um deles sustentado por pouco mais que a própria vontade. Vando reconheceu os dois. Eram habitantes de sua região, caçadores, capturados pelos servos do Trio Profano enquanto investigavam os ataques às comunidades próximas às Cataratas das Serpes.
— Ei, amigo. Vou salvar você — declarou o arqueiro.
Thalion encontrou as chaves e abriu as celas, enquanto Vando empregava seus poderes para curar os prisioneiros. Seus pertences estavam abandonados em sacolas próximas, e Thalion fez questão de devolvê-los. Depois de garantir que Mauro e Roger sobreviveriam, o grupo examinou o restante do esconderijo. Os destroços do golem revelavam que ele originalmente permanecera sobre a base de uma grande estátua. Utilizando sua percepção e suas habilidades de exploração, Thalion percebeu que havia algo oculto naquela estrutura. Sua varinha de detectar magia, já recuperada da interferência provocada por Gazriktac, confirmou a presença de encantamentos tanto na base quanto em uma grande arca de madeira no canto da sala. Havia um compartimento secreto sob a estátua. E havia magia protegendo os dois compartimentos. Thalion chamou Vando para examinar a arca. Antes que o guardião se aproximasse, concedeu-lhe proteção contra venenos, uma precaução razoável diante de um baú pertencente a uma aberração. Vando estudou cuidadosamente a fechadura e percebeu pequenas runas gravadas ao redor do mecanismo. Não compreendia a natureza exata daqueles símbolos, mas tinha certeza de que eram mágicos e provavelmente hostis. Como Isolda permanecia na entrada das minas, coube a Lázaro lidar com a proteção. O sacerdote dissipou o encantamento, fazendo as runas desaparecerem antes que pudessem liberar seu efeito.
Thalion se afastou, protegeu-se contra venenos e abriu a arca. Seu interior estava repleto de riquezas. Havia gemas, uma vasta quantidade de peças de ouro, poções, pergaminhos, e alguns itens que emanavam uma aura mágica. A contagem e a identificação definitivas ficariam para um momento mais tranquilo. Vando perguntou repetidas vezes se havia alguma arma.
Não havia.
O compartimento secreto sob a estátua estava protegido por outra runa. Vando voltou a examinar o local e identificou o mesmo tipo de armadilha. Lázaro invocou novamente seu poder, superou a resistência da magia e apagou o glifo antes que ele pudesse atordoar todos que estivessem próximos. Havia ainda mais tesouros. Sob o olhar de qualquer plebeu, eles estavam ricos.
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| Vamdo liberta o caçador Roger |
O Fim de um Capítulo
Com Mauro e Roger libertados, seus pertences devolvidos e os esconderijos do Observador esvaziados, os Unicórnios Saltitantes começaram a preparar a retirada. Vando ainda empregaria o restante de suas curas nos prisioneiros antes do próximo descanso. O grupo pretendia retornar até os goblins desertores, encontrar um local seguro para dormir e, depois, voltar ao povoado de Cataratas de Serpes. No entanto, a vitória não apagava tudo o que acontecera no Vale das Nuvens.
Sim. Camponeses haviam sido sequestrados ou mortos. Diversos goblins haviam sido transformados em servos, cobaias ou criaturas aberrantes. Worg, Ketil e Darian tinham perecido na batalha contra o Trio Profano.
Mas Ur-Jasz estava morto.
Kezzerug estava morto.
Gog’drozaun estava morto.
Gazriktac estava morto.
E o golem aquático de Shaboath havia sido destruído.
A corrupção do Reino Distante já não possuía um agente conhecido nas minas. Os Poços de Io-Rach estavam silenciosos, e o Vale das Nuvens parecia, enfim, livre da ameaça imediata que pairava sobre ele. Os aventureiros deixariam aquele lugar levando consigo riquezas, sobreviventes, cicatrizes e os nomes daqueles que não retornariam. Entretanto, entre as lembranças da batalha, uma frase permanecia gravada em suas mentes:
“Este é apenas o primeiro combate entre nós.”
Talvez fosse apenas a última ameaça de uma criatura condenada. Talvez Shaboath ainda aguardasse em algum lugar além das fronteiras de Mystara. Mas essa seria uma preocupação para outro dia. Por enquanto, os Unicórnios Saltitantes haviam vencido. E um longo capítulo das Crônicas de Mystara chegava ao fim.
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| Os unicórnios observam o fim do dia no Vale das Nuvens |
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